Por que só os paulistas têm direito ao uso de um aeroporto central e o Rio de Janeiro não? Esta pergunta continua sendo feita por grande parte da sociedade carioca e ainda está sem resposta. Será que os paulistas são cidadãos de primeira classe e os cariocas não? Apesar dos investimentos em Cumbica, nunca se cogitou deixar Congonhas para vôos exclusivos para a Ponte Aérea e transferir os vôos nacionais para Guarulhos. A tentativa de deixar o aeroporto paulistano exclusivo para vôos ponto a ponto não resistiu seis meses.
No Rio, o Santos Dumont recebeu investimentos que superaram os R$ 400 milhões. Ganhou um terminal climatizado e hoje só opera com metade da sua capacidade. Como resultado da baixa ocupação, o complexo do Aeroshopping ficou pela metade. Existe todo um pavimento do novo bloco fechado. Os concessionários amargam um faturamento pífio e o que seria um portão de entrada dos mais nobres para o turismo do Rio ficou reduzido a um terminal para engravatados passageiros da Ponte Aérea.
Os R$ 400 milhões foram tirados do cofre da União para o benefício de poucos. Agora, a tentativa de colocar vôos nacionais no terminal, mesmo que sejam ligações dentro do seu limite de operação, vem sendo atropelada por conta de uma decisão política de beneficiar os futuros arrendadores do aeroporto do Galeão, colocado em oferta pública pelo governador Sérgio Cabral.
A sensação que se passa é de que o chefe do executivo fluminense está mal assessorado no caso do transporte aéreo. Na prática, o que Cabral está fazendo é uma reserva de mercado e eliminando uma possível concorrência. Se a sua tese de privatização do Galeão vencer, não seria salutar a existência de uma concorrência para forçar investimentos em favor do usuário. Podar os vôos nacionais no Santos Dumont é agir em defesa da reserva de mercado para um possível comprador.
Outro fato é o reflexo negativo no turismo de barrar os vôos nacionais para o aeroporto central carioca. O Galeão é um inibidor de viagens, não apenas pelo estado que se encontra e que ficará nos próximos meses até a conclusão das reformas e conclusão do terminal 2. A Infraero terá de fazer um verdadeiro malabarismo para equilibrar obras em um terminal funcionando. Isso significa um calendário mais dilatado. Aliviar o tráfego só iria facilitar as conclusões do trabalho.
Pouca gente se lembra, mas as obras do Santos Dumont fizeram parte das realizações governamentais para os Jogos Pan-americanos. Agora, vem a copa e os vôos saem em conta-gota do aeroporto de cristal. Não é só a novata Azul que deseja operar no terminal central. Ela possui os aviões corretos para esta operação, os jatos 195 e 190 da Embraer. A OceanAir também quer colocar os seus MK-28 em rotas além-Congonhas, a Webjet com os 737-300 também está habilitada. No mesmo rastro, seguem os pleitos da Gol, com o Boeing 737-700, e da TAM com o A319.
Não se pode super ofertar o Santos Dumont, porém deve ser colocado a serviço do usuário carioca os mesmos direitos que possuem os paulistas, que podem sair de Congonhas para os principais aeroportos do País.
Outro agravante é a questão de segurança e do acesso pela Linha Vermelha. Há pouco mais de 30 dias, um tiroteio na favela de São Cristovão paralisou o tráfego por mais de uma hora e centenas de passageiros perderam o seu vôo.
A segurança é responsabilidade do Governo do Estado e nesse aspecto o Galeão paga um alto preço pela herança que o governador Cabral recebeu dos seus antecessores. O trade turístico não pode ficar imobilizado nesta polêmica. Não se deve cruzar os braços e permitir que um dos mais bonitos portões de acesso ao Rio fique às moscas.
O governador Sérgio Cabral deveria convocar a opinião de especialistas e até ouvir com atenção os argumentos de David Neeleman, acionista da Azul. O Rio tem que ser beneficiado somando. A conta de subtração só deve funcionar para diminuir a violência urbana, as injustiças e as barreiras que impedem o seu crescimento.