Uniformes de grife, assinados por estilistas famosos, tornam-se tendência entre as companhias aéreas
Desde os primórdios da aviação comercial a moda sempre esteve a bordo. Para a maioria, passageiras com vestidos impecáveis e viajantes de ternos alinhados costumam espelhar o glamour das viagens aéreas. Mas, ultimamente, são os corredores e a galley que vêm se transformando em passarelas informais, onde a tripulação desfila modelos de estilistas famosos. Empresas como TAM, TAP, Gol e Azul vêm investindo na contratação de grifes para desenhar seus uniformes.
A TAM se preocupa tanto com a boa aparência de seus comissários que é a primeira entre as empresas aéreas brasileiras a investir numa loja própria só de uniformes. Os mais de 22 mil funcionários da compania podem escolher suas peças nas prateleiras e armários, que se parecem mais com as de um showroom de luxo.
Com 800 m² de área e três andares, a supervitrine permite aos colaboradores a retirada, troca e ajustes dos mais de mil itens do guarda-roupa da marca. O térreo é destinado aos uniformes para cadeirantes e gestantes, no primeiro andar estão os vestuários e acessórios femininos e no segundo andar, as roupas masculinas. “A ideia é que esse espaço se torne um local de convivência deles. Nós quisemos tornar o ato de retirar ou trocar o uniforme uma experiência única de contato com a marca e os valores da TAM”, diz a diretora de Marketing da companhia, Manoela Amaro.
O projeto e a decoração com toques florais e detalhes em vermelho e azul, cores oficiais da companhia, recebem a assinatura da arquiteta Aline Cobra. Os balcões iluminados possuem aplicações nas laterais de croquis gigantes da estilista Marie Toscano, que desenvolveu os uniformes atualmente utilizados pelos colaboradores. Os provadores femininos possuem efeito infinito e todos eles com tapetes vermelhos – uma marca da TAM.
A criação de seus uniformes também seguiu o mesmo rigor de elegância. A tarefa, nada simples, ficou a cargo da estilista Marie Toscano, há três anos. Ela conta que entre as exigências da empresa constava a obrigatoriedade da criação de peças sofisticadas, sem ser despojadas, que pudessem ser utilizadas em ar e terra, por homens e mulheres. “A TAM é uma companhia aérea que tem posicionamento internacional e preza pelo serviço diferenciado”, justifica.
Marie optou por sair do lugar comum e no papel desenhou roupas no conceito “clássicas renovadas” - atuais e de design diferenciado. “É uma produção que veste bem em qualquer ambiente profissional, de dia ou à noite, fora das aeronaves”, acrescenta a estilista. A solução foi apelar para o conceito do guarda-roupa, com várias opções, incluindo modelos de saias, calças, vestidos, top, blusas de gola alta e camisaria.
“Por facilitar as combinações, dificilmente o cliente irá ver duas aeromoças com o mesmo modelito a bordo”, revela. A profissional da moda não deixou de lado os detalhes. A começar pelos sapatos femininos na cor azul escuro e com uma lista em vermelho, bolsa, porta-casaco e meia-calças da cor da pele, porém em diferentes tonalidades e, conforme o tom de pele, gravatas que se diferenciam pelo cargo, no masculino.
Toscano diz que os uniformes costumam ser uma ferramenta de marketing muito forte e chamam a atenção dos passageiros. “Nos voos da TAM eu não me identifico e ouço elogios. As pessoas só costumam dar sua opinião para o muito feio ou o muito bonito”. Além da repercussão, outra vantagem apontada por Marie é a auto-estima dos comissários, principalmente das mulheres. “Já me disseram que elas estão se achando lindas!”.
A OceanAir, pertencente ao grupo brasileiro Synergy, também vem mostrando interesse em reformular os uniformes da tripulação e para isto vai desenvolver um projeto em conjunto com estudantes de cursos de moda situados em São Paulo. A empresa ainda está discutindo alguns pontos e procurando parceiros para a iniciativa. A idéia começará a ser colocada em prática ainda neste ano.
A portuguesa TAP encomendou aos conhecidos estilistas lusos Manuel Alves e José Manuel Gonçalves a tarefa de redesenhar seus uniformes. O resultado é um vestuário de trabalho flexível, que permite a cada profissional combinar peças e montar seu próprio visual, embora o conjunto ainda permaneça conectado ao conceito original da companhia.
Funcionalidade em alta
Os estilistas brasileiros acreditam que atualmente existem duas tendências bem definidas nas vestimentas de bordo no país: os clássicos e os modernos. A estilista Glória Coelho, por exemplo, assinou os futuristas uniformes da Gol, com mangas postiças e fecho-éclair no casaco. O objetivo é a funcionalidade e as peças lembram os modelos feitos para atletas em tecidos de alta tecnologia, de fácil secagem e que não amassam.
Existem empresas que preferem o meio termo, exemplo da Azul Linhas Aéreas. O conceito principal para a criação se resume no resgate do glamour das companhias aéreas do passado, quando pilotos e aeromoças eram tão elegantes que se tornaram referência de moda. “O desafio maior foi unir design, qualidade e durabilidade com segurança”, revela a estilista Isabella Giobbi.
Anos dourados
A história dos uniformes dos comissários começou na década de 1930. Empresas aéreas na Europa e nos Estados Unidos começaram a contratar enfermeiras para cuidar de passageiros que tinham medo de voar. As roupas tinham tons cinzentos e jeito militarizado. “Vem justamente daquela década a longa tradição do uso do chapéu, as insígnias e os brasões nos uniformes”, explica a jornalista e professora de moda da Escola Sigbol Fashion, de São Paulo, Cecília Lima.
Os anos 1950 e 1960 foram os mais glamourosos em relação às vestimentas das aeromoças. “Com a chegada dos Boeings, as comissárias representavam também o papel de garota-propaganda das companhias”, diz Cecília. “Isto tudo era muito forte na era do jet set, época de estampas modernas, tailleurs compridos, camisas inteiras e os lenços nos cabelos”, reforça Titta Aguiar, consultora de estilo, escritora e professora de moda do Senac/SP.
Na Europa da década de 1980, muitas vestimentas da tripulação eram criadas por estilistas renomados. Os uniformes da Air France foram assinados por profissionais do calibre de Pierre Cardin, Balenciaga, Courrèges, Dior, Lacroix e Nina Ricci. E para diferenciar ainda mais o serviço, a mais tradicional companhia aérea francesa adotou em várias rotas internacionais roupas de acordo com a cultura do destino final do voo. “Por exemplo, havia vestidos floridos e estampas tropicais”, conta Titta.
A British Airway, outra tradicional empresa européia, também adotou a sistemática e chegou a vestir com quimonos as aeromoças em voos feitos para o Japão. No Oriente os trajes típicos sempre perduraram. Referências à própria cultura costumam fazer parte dos uniformes de aéreas asiáticas e árabes. Considerados por estilistas como elegantes e criativos ainda hoje é possível ver uniformes repletos de véus e sáris, como, por exemplo, os modelos adotados pela Emirates, de Dubai.
Mistura brasileira
Do outro lado do mundo, mais especificamente nos Estados Unidos, a prioridade nunca foi o visual e sim o serviço. As aeromoças usavam aventais com um bolso na frente para receber e dar troco de forma mais ágil porque as bebidas e o som dos filmes passados nos aviões eram pagos. Por questões culturais, ainda assim as comissárias de bordo sempre usaram a maquiagem muito forte, as meias antivarizes e os saltos altos.
No Brasil, os entendidos de moda acreditam na existência de um mix de influência da América do Norte e também da Europa. Mesmo assim a criação de um uniforme segue regras nas quais o impacto visual até pode ser importante, mas não é, com certeza, definitivo. Hoje predomiman as roupas funcionais, práticas e que permitem a mobilidade em pleno ar e nos corredores apertados.
“A proposta brasileira é a roupa clean, confortável e um bom caimento. Mas eu sinceramente acho que tanta praticidade e ousadia acabam com a história. Todo mundo gosta mesmo é da elegância”, opina Titta. Na opinião da professora, os uniformes não podem ser tão sensuais, pois lenço no pescoço e salto do sapato já têm um forte apelo. “O desleixo, este sim é imperdoável, não dá a impressão de que o avião pode despencar?”, brinca.