Com a afirmação, o presidente da Líder Aviação, Eduardo Vaz, resume a importância do negócio de R$ 365 milhões com a Bristow. De olho no pré-sal, a megaoperadora inglesa de helicópteros comprou 42,5% da companhia brasileira
Há mais de 50 anos no mercado brasileiro, a Líder Aviação, a maior empresa de táxi aéreo do País, ganhou no fim de maio um sócio peso-pesado: a inglesa Bristow, uma das principais operadoras mundiais de helicópteros, especializada no apoio petrolífero. O negócio de US$ 174 milhões (R$ 365 milhões) torna a brasileira uma companhia global com acesso a mercados em todo o planeta. Pelo acerto, a Bristow adquire 42,5% do capital da Líder, que incluem 20% das ações com direito a voto.
Em meio século de vida, a Líder consolidou a fama como uma das instituições mais modernas e seguras de todo o setor. Jovem, com apenas 47 anos, o presidente do grupo, Eduardo Vaz, é tido como um fator essencial para o sucesso da corporação, que comanda desde 1999. Na entrevista exclusiva à Aviação em Revista, o empresário conta o que espera do novo sócio e das estratégias da empresa no longo prazo.
A Líder Aviação, presente em mais de 20 aeroportos em todo País, conta com uma frota composta por mais de 60 aeronaves executivas. Foi fundada em 12 de Novembro de 1958 pelo comandante José Afonso Assumpção, que ainda atua na empresa. Além dos serviços de fretamento, gerenciamento, manutenção e venda de aeronaves, a companhia representa no Brasil a fábrica norte-americana Hawker Beechcraft Corporation e a marca de simuladores de vôo CAE SimuFlight.
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Aviação em Revista - O que representa a entrada da Bristow na holding?
Eduardo Vaz - Representa uma nova fase para Líder. Foi uma decisão muito importante que tomamos. Pensamos muito e analisamos todas as possibilidades, os prós e contras e chegamos à conclusão que realmente era o momento oportuno para concretizá-la. A Líder é realmente a maior empresa de aviação executiva da América Latina. É a mais organizada e forte financeiramente. É a empresa mais ajustada dentro das normas internacionais de contabilidade, auditada pela Deloit há muitos anos. Então todas essas virtudes nos permitiram avaliar a possibilidade de uma boa posição. Com essa associação, nós vamos estar cada vez mais preparados para os desafios que virão pela frente.
AR - Como vai funcionar a associação com a Bristow? A empresa inglesa certamente vê a sociedade com a Líder como estratégica para a entrada no futuro mercado do pré-sal.
EV - A Bristow entrou em nossa holding, então ela entrou em todas as nossas áreas de operação e não necessariamente só de helicópteros. É lógico que a área de helicópteros é estratégica, até pelas descobertas do pré-sal. E nossa visão é que isso demandaria um esforço e investimentos muito grandes e que a Líder sozinha teria maiores dificuldades de atender à nova demanda. Nesse caso é importante termos fechado essa parceria com uma empresa que é de aviação. Um fundo de investimento ou uma financeira teria uma visão de mais curto prazo de tentar fazer alguma melhoria operacional e vender o negócio. Acho que uma empresa de nossa área vai ter uma visão que coincide com nossa estratégia de longo prazo. Nós também compartilhamos os valores deles, como segurança em primeiro lugar e priorizar investimento em pessoal. A Líder entra em um novo patamar. Saímos na frente de novo no mercado.
AR - E quais as conseqüências imediatas do negócio?
EV - A primeira é a introdução no final de junho do primeiro Sikorsky S92 do Brasil. A Líder está trazendo essa aeronave. Compramos também quatro S76C++, que nós arrendávamos da própria Bristow. Quitamos essas aeronaves à vista. E, de novo, a Líder é pioneira ao trazer o S92 para o Brasil. Isso já mostra nosso otimismo em relação ao futuro.
AR - Há possibilidade de haver intercâmbio de frota, ou seja, de a holding trazer aeronaves da Bristow para reforçar a frota no Brasil e atender a um provável aumento de demanda no caso do pré-sal?
EV - Sem dúvida. Esse é um dos planos. Se juntarmos a frota da Líder, a Bristow reúne com mais de 500 helicópteros no mundo. E nós estamos contando com essa flexibilidade. Com esse número de helicópteros, ela pode nos ajudar no mercado brasileiro. Como a Bristow é um grande operador de aeronaves Eurocopter, a Líder pode começar a usar mais os modelos da marca européia.
AR - Qual foi o valor do negócio? E como será utilizado esse dinheiro?
EV - Foi de US$ 174 milhões (R$ 365 milhões). Vamos usar o reforço de caixa para aquisição de aeronaves, construção e ampliação de hangares e de centros de reposição, ou seja, de um modo geral, para fazer crescer o negócio como um todo.
AR - E o segmento dos aviões? Vai haver aumento de investimento?
EV- No curto prazo é um investimento menor. Podemos comprar uma ou duas aeronaves. O investimento será mais na parte de helicópteros, de hangares, ferramental, peças de reposição, novos sistemas e treinamento de pessoal.
AR - A experiência da Líder na operação dentro do setor brasileiro offshore, caracterizado por exploração em águas profundas, vai ajudar a ampliar o mercado internacional da holding?
EV - A Bristow já deixou claro que também quer aprender com a Líder. Que nós temos mais experiências em algumas atividades que a própria Bristow. Então esse expertise nosso é essencial e a nova sócia até acha que amanhã pode vir a usar essa experiência na operação dela em outros países. A Líder pode, desse modo, com a Bristow, expandir suas atividades para outros países da América do Sul. Ou outras áreas nas quais nossa parceira achar que agregaremos mais valor à operação.
AR - A Líder detém a maior parcela do mercado brasileiro de serviços de transporte offshore (plataformas marítimas de petróleo). Quais as perspectivas para esse mercado em 2009?
EV - As perspectivas são positivas. Dentro do quadro que estamos vendo em todo o mundo, o Brasil continuará os projetos de exploração de petróleo. Temos percebido um desenvolvimento não só da Petrobras, mas de todas as empresas ligadas à exploração do produto. Quanto ao crescimento da frota de aeronaves, da nossa parte, porém, não temos perspectivas tão otimistas até o momento. O problema é que esse é um exercício de adivinhação. Não dá para ter uma previsão certa.
AR - Houve queda da demanda devido à crise global?
EV - Por enquanto não percebemos uma queda. Acho que tudo vai depender do desempenho das empresas ligadas ao petróleo. Temos grandes esperanças para o crescimento de longo prazo.
AR- Quais os planos da empresa para este ano?
EV - Não temos grandes planos de investimentos para 2009. A Líder fez alguns investimentos importantes ao longo dos últimos anos e, agora, queremos apenas consolidar esse dinheiro aplicado. Não há nenhum plano de fazer investimentos maciços. A ideia é simplesmente manter os compromissos financeiros e as operações que estávamos realizando. O mundo vinha em um embalo bastante forte e, de repente, levou um susto. Todos os nossos investimentos são muito bem equacionados, mas mesmo assim a perspectiva da empresa é simplesmente consolidar as operações feitas no ano passado.
AR - Há perspectiva de crescimento dos negócios? De quanto?
EV - Se formos crescer nesse momento, sem um aumento da dívida, acredito que só na base de parcerias ou arrendamentos profissionais. Acho que vamos ficar na espera do que vai ocorrer na indústria do petróleo. Fica difícil até prever um crescimento. Não dá para realizar uma previsão.
AR - Quais os setores mais promissores hoje para investimento no segmento aeronáutico em geral: offshore, executivo ou serviços?
EV - Todos os setores continuam sendo promissores. Se a Líder investe neles, hoje, é porque sempre acreditou que são áreas em que existe um volume real relativamente bom de demanda. No momento, porém, acho que todos os setores sentem o reflexo da desaceleração da economia.
Claro que todos continuam a ser interessantes e têm os seus desafios, mas não há um que esteja uma maravilha para se investir.
AR - Diante do cenário atual, quais as estratégias da Líder para continuar crescendo?
EV - Contenção de gastos, pés no chão e manutenção de investimentos feitos no passado. Acredito que seja essa a melhor maneira de passar pela turbulência.
AR - Quais são as lições aprendidas com a crise econômica mundial?
EV - Ela nos reafirma que não dá certo ter uma empresa que banca o seu crescimento com dívidas muito elevadas. Isso é um risco maior do que se imagina. Essa nunca foi a nossa estratégia. Todas as empresas que estavam muito endividadas e confiando no crescimento da economia sofreram com a situação. A lição é mais ou menos essa: resgatar ou até relembrar os valores que sempre praticamos. Somos até conservadores nesse ponto. Crescemos com as próprias pernas e com um grau de alavancagem financeira e operação de custos adequada para a empresa. Há uma análise certa dos riscos. Essa é a grande lição. A Líder já passou por várias crises, só que as lições, na verdade, são sempre as mesmas. São coisas que parecem óbvias e batidas, mas que fazem sentido, como ter muita preocupação com o custo, por exemplo. Buscamos sempre crescer com base em nossos próprios recursos e investir na qualidade do serviço prestado.
AR - Há algum plano de operação de linhas comerciais? Ou de cargas?
EV - Não há nenhum plano de investir em linhas comerciais ou de cargas. Nós já temos um mercado suficientemente complexo. Não vale a pena focar em outros setores. Não temos gente e nem capital para isso. Preferimos trabalhar no setor que já conhecemos e que nos tornamos líderes.
AR - A Líder é uma das empresas brasileiras que já encomendou o novo modelo da Sikorsky, o S76D. A expectativa da empresa é de uso principalmente offshore ou executivo?
EV - Offshore. É um modelo feito exatamente para offshore. Só iremos receber, porém, em 2011 ou 2012. Ainda falta muito tempo. Sem sombra de dúvidas, porém, o S76D será usado para serviços.
AR - A Líder solicitou em abril de 2008, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pedido de registro de companhia aberta. A holding ainda mantém plano de abrir o capital?
EV - Fazia parte dos planos da empresa. Hoje, não mais. Com esse mercado conturbado que termos aí nós não temos plano algum de abrir o capital. O interesse era, realmente, ter mais capital para fazer investimentos com recursos próprios. Quer dizer, crescer sem se endividar. Os recursos, porém, diminuíram bastante. A operação não é mais atraente. Além do mais, achamos que a Líder ainda não tem porte suficiente para ter uma liquidez financeira adequada. Como disse, seria um risco imenso uma operação dessas em momento de crise.
AR - No futuro, após a crise, a empresa pode rever essa decisão?
EV - Provavelmente sim. É importante para valorizar a empresa. Só que, com a crise, os riscos são altos demais e vai contra a nossa filosofia de atuação.
AR - A inauguração do novo hangar em Jacarepaguá e do novo centro aeroportuário em Natal significa uma estratégia voltada para a área de serviços?
EV - Acho que simboliza mais uma continuação da estratégia que já tínhamos definido anteriormente. Investimos na área de serviços na medida em que temos recursos e uma demanda que justifique o aporte de dinheiro.
AR - No segmento de aviões novos, qual a aposta da Líder para este ano qual segmento deve mostrar mais fôlego: Light Jets, Midsize Jets ou Turbohélices?
EV - Turbohélices. Essa é a nossa aposta. Simplesmente porque é uma opção mais barata e mais flexível. Nesse momento de turbulência, é a escolha mais adequada. Acredito que os empresários do ramo também pensem assim. Atualmente, o melhor investimento é no segmento de turbohélices.
AR - Como estão as vendas dos modelos Premier I e II? E qual a expectativa para este ano?
EV - As vendas do II só começarão mais para a frente. A expectativa é vender poucas unidades do I. Todas as empresas têm sofrido com a crise. Essa é a verdade. Só que nós sofremos menos que os outros. Tivemos poucos cancelamentos em comparação com a concorrência. Ano passado nós contabilizamos muitas vendas. Nesse ano, porém, serão bem menos. Em 2008, vendemos 60 aeronaves. Em 2009, é capaz desse número cair pela metade. É difícil prever, mas esperamos uma queda.
AR - A Líder completou 50 anos no final de 2008. Qual o balanço de todo esse tempo e quais são as perspectivas para o futuro com base na experiência adquirida em tantas décadas?
EV - O balanço é extremamente positivo. A instituição se consolidou como uma empresa moderna e líder em todos os segmentos de mercado em que atua. Tem uma equipe inigualável e um forte reconhecimento no Brasil e no exterior dos serviços que presta. É gratificante ver a Líder, depois de 50 anos, ser reconhecida como uma empresa na liderança da área onde atua. As perspectivas, aliás, continuam boas. Essa é uma instituição conservadora e que sempre cresceu com muita segurança. Ela preferiu agir dessa maneira. Não buscou se aventurar em outros setores que demandariam investimentos e riscos maiores. Além disso, sempre procurou se aperfeiçoar e investir com total segurança. Isso eu coloco em primeiro lugar como fator de sucesso. A empresa também investe muito nos seus profissionais para que sejam reconhecidos pelo trabalho. Queremos crescer com um lucro continuado, mas nunca com uma visão de curtíssimo prazo. Isso é sempre muito perigoso e acredito que esse modo de agir é responsável por boa parte dos problemas que a economia global passa atualmente. Aprendemos nesses últimos 50 anos que precisamos construir uma base sólida para uma demanda sustentável e, dessa forma, não tenhamos construído um castelo de areia.