9 de setembro de 2010
 
Pilotos tipo exportação
13/7/2009 17:26:23 - Por Adriana Machado | Aviação em Revista

Companhias estrangeiras atraem pilotos e co-pilotos brasileiros com ótimos salários e benefícios – extensivos à família

Os rostos, o jeito diferente de falar – e mais descontraído de ser – com certeza não são os mesmos dos colegas de trabalho sentados ao lado.  A cena poderia descrever o ambiente de qualquer companhia multinacional, onde se misturam culturas e talentos vindos de várias partes do mundo, mas, na realidade, falamos de pilotos brasileiros que vêm consolidando carreira em outros continentes.

Mais do que consequência da globalização, o que muitas empresas aéreas mundo afora buscam são profissionais experientes. E isso o Brasil tem de sobra, graças aos rigorosos treinamentos fornecidos pelas empresas nacionais e às crises econômicas que quebraram companhias e abasteceram o mercado com comandantes sem aeronaves. Com o dólar e o euro fortes, a disputa acirrada por pilotos nacionais tornaram as ofertas lá fora muito vantajosas.

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Os benefícios de trabalhar longe do seu país de origem também buscam compensar a mudança muitas vezes radical: moradia de alto padrão, educação diferenciada para as crianças em escolas com mais de um idioma, salário em moeda forte e a chance de poder absorver uma nova cultura, conhecer novos lugares e outros países. Foram justamente essas vantagens que incentivaram o comandante gaúcho Eduardo de Vasconcelos, com 21 anos de Varig, a buscar novos horizontes, literalmente. De malas prontas (dele, a mulher Cláudia e dos dois filhos) a família  partiu para a China.

Eduardo se encaixa perfeitamente no perfil exigido pelas companhias de aviação de outros continentes, no seu caso, a Shanghai Airlines Cargo. Ele começou a carreira aos 21 anos, foi promovido a comandante em 1991 tendo pilotado os B737-300, B737-700/800, B757 e B-767, em rotas domésticas e internacionais. Acumulou mais de 14 mil horas de voo e efetuou vários treinamentos em simuladores no exterior. Também ajudou a formar outros profissionais que estão seguindo os mesmos passos.

“A Varig tinha uma excelente estrutura de ensino que, com certeza, serviu de referência para o padrão operacional das nossas empresas e o sucesso dos profissionais brasileiros lá fora”, explica Vasconcelos. A decisão de trabalhar no mercado internacional, segundo ele, coincidiu com a paralisação da companhia aérea brasileira. Apesar da boa acolhida dos pilotos no mercado interno, a quantidade de ofertas e pacotes financeiros oferecidos no exterior ampliou o leque de opções.

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Até meados de 2008, o Sindicato Nacional dos Aeronautas tinha conhecimento da existência de cerca de 500 pilotos (comandantes e co-pilotos) empregados em diversos países do mundo. Contudo muitos aposentados no Brasil que têm problemas com as pensões optaram por retomar as atividades no exterior. “Acreditamos que tão logo sejam regularizados os benefícios das previdências complementares, muitos retornarão”, reforça a Presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio.

Eduardo e a família, no entanto, nem pensam nessa possibilidade. As saudades dos parentes e dos amigos, do churrasco e do futebol existem. “Nosso sol e céu azul fazem falta e acompanham nossa trajetória”, diz ele. Por essa razão o comandante ressalta que todos os integrantes da família devem estar dispostos a fazer concessões e sacrifícios também. “Nem sempre trabalhar no exterior é a melhor opção e deve ser muito bem calculada, caso a caso”, aconselha.

Aulas de culinária e de mandarim
No caso da família gaúcha, a adaptação começou pelo estômago, passando pelo trânsito e a poluição. Shangai, onde moram, é um verdadeiro canteiro de obras, com muita poeira espalhada pelo ar. “Sentimos falta de vegetação verde típica do nosso país”, afirma Eduardo. “Em contrapartida temos um nível de segurança elevadíssimo, acesso a tecnologia e bens de consumo baratos e uma excelente qualidade de vida”.
Os filhos Vinícius, de 11 anos, e Rebecca, de 14 anos, estão bem adaptados e estudam na Escola Internacional de Cingapura. Os dois têm uma carga de estudo muito superior a do Brasil, falam inglês e estudam mandarim como segundo idioma. Sem falar nas amizades feitos com crianças e adolescentes de outras partes do mundo tais como a Malásia, Cingapura, Índia, Coréia do Norte e Japão. Já o tempo livre de Cláudia é preenchido com o mandarim, culinária, feng shui e tai chi chuan.

“Morar aqui nos deu a oportunidade de conhecer a Muralha da China e também as Filipinas. Neste ano estamos planejando ir até o Vietnã e a Tailândia”, revela Cláudia. O marido Eduardo Vasconcelos também compartilha da mesma sensação: o de descobertas. Segundo ele, a experiência de dividir a cabine do avião com colegas de outras nacionalidades enriquece a experiência profissional e cultural. “A adaptação exige despreendimento, determinação e algumas quebras de paradigmas”, diz.

Antes do processo seletivo, o piloto gaúcho já tinha cumprido o contrato de quase um ano nas asas dos B767 da Air Mauritius, localizada nas paradisíacas ilhas Maurício, no Oceano Índico. De lá voou pra Bombaim, Chennai, Nova Deli, Hong Kong, Cingapura e Kuala Lumpur, Austrália e os continentes europeu e africano. Atualmente Eduardo pilota os MD-11 da Shanghai, após fazer curso de especialização na Lufthansa, na Alemanha, e na Swiss, na Suíça. 

Também oriundo da Varig, o comandante gaúcho Eduardo Salem Bastos aceitou tirar uma licença sem vencimentos da ex-companhia aérea gaúcha. Aproveitou a oportunidade e foi trabalhar na Holanda, a Transavia, empresa regional de propriedade da KLM. “Sem dúvida tive uma nítida noção do mercado estrangeiro, e pesou muito na decisão deste novo desafio”, revela. No caso do piloto, o convite veio através da internet, seguido do processo de avaliação.

Ele passou por treinamento em função do novo tipo de avião para o qual foi contratado a pilotar, o 747- 400.  “Nós fazemos sucesso por termos já voado em diversas situações adversas na nossa profissão no Brasil, principalmente na região Amazônica”, fala. “Com isso somos obrigados a colocar nossos conhecimentos constantemente a prova. Em contrapartida os estrangeiros têm todo o apoio e o investimento do órgão regulador na aviação, o que não ocorre no Brasil, infelizmente, há mais de 10 anos”.

Existem basicamente duas maneiras de acesso de pilotos ao mercado internacional: via empresas de alocação de pilotos que o redirecionam para contratos com empresas associadas ou através da seleção direta. Em ambos os casos, um currículo impecável, inglês fluente e determinação são decisivos. O processo de seleção exige um teste local, com provas de simulador e questões específicas, além da exigência de comprovação de, no mínimo, 500 horas de voo nos últimos seis meses.

E aí os brasileiros costumam sair na frente. Aqueles que não foram da Varig, trouxeram uma boa carga de experiência da Vasp e da Transbrasil. A principal característica do piloto expatriado é sua capacidade de adaptação, facilitando a comunicação com os locais e a rotina de treinamento. Ou seja, para os pilotos brasileiros que foram demitidos por grandes companhias aéreas ao longo dos últimos anos, trata-se de uma bela e importante opção  de trabalho.

De uma maneira em geral, os salários podem chegar a até quatro vezes mais que os pagos no Brasil, dependendo do tipo de aeronave, e em moeda americana (sujeita às variações da cotação). Mas outros benefícios costumam ser adicionados, como auxílio moradia, diárias, horas extras, passagens para o piloto e os familiares e bônus por ano de contrato. A média de salário e vantagens de um comandante de Boeing 737 na China fica em torno de U$$ 12 mil.

No Brasil, especialistas dizem que a média salarial de pilotos brasileiros que fazem voos internacionais varia de R$ 17 mil a R$ 19 mil brutos, se os pilotos voarem dentro do limite da regulamentação do setor — 85 horas por mês ou 230 horas por trimestre. Esses pilotos também recebem um adicional por voar à noite. Para os que trabalham no mercado doméstico, o salário bruto oscila entre R$ 8 mil e R$ 12 mil. Ou seja, o expatriado ganha 2,5 vezes mais.

A estrangeira Emirates, por exemplo, vai mais longe. Com 92 pilotos brasileiros no quadro de funcionários, oferece participação nos lucros, 42 dias de férias anuais, passagens com desconto em toda a malha da empresa, plano médico e dentário para a família de até três filhos, seguro de perda da carteira de saúde, e muitas outras facilidades. A filosofia da companhia é a de contratar co-pilotos que serão os futuros comandantes, após um período de experiência equivalente a três anos.

  Experiência própria  
"Adaptar-se a uma nova cultura e a uma nova língua não é uma tarefa fácil, especialmente com uma família de três adolescentes, mas a Emirates fornece todo o suporte para esse processo e Dubai, com sua característica multicultural, torna essa tarefa mais fácil. O inglês é falado em toda a cidade, tanto pela população local como pelos estrangeiros –  facilitando a comunicação –  e a segurança foi um dos fatores mais importantes na decisão de me mudar para esta cidade. Os primeiros seis meses são críticos na adaptação, mas o fato de termos outras famílias brasileiras ajudou muito na construção de novos relacionamentos. As diferenças culturais são grandes, sendo necessário conhecê-las e comportar-se de acordo, mas os brasileiros são definitivamente bemvindos pela população árabe. Existem muitas opções de escolas com currículo internacional, assim como alternativas para as esposas continuarem suas carreiras ou mesmo começarem um nova. A Emirates também ajuda as esposas dos pilotos a encontrar emprego. Além disso, Dubai oferece diversas alternativas de lazer para a família, tais como shopping centers, cinemas, esqui na neve, lindas praias, parques públicos e aquáticos, boliche, golfe, tênis, vela, paintball e kart. Já o clube de pilotos da Emirates oferece acesso a resorts , clubes e spas de excelente qualidade. É possivel contratar empregadas domésticas tanto em período integral, quanto parcial. Após três anos a família está muito bem adaptada e fazendo planos em longo prazo."

Depoimento do comandante Ronald Vanderput, que atualmente pilota um Boeing 777 da Emirates. Ele ingressou na empresa em 2006, após deixar a Varig.

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