FAB e Embraer fecham contrato de U$ 1,4 bilhão para o desenvolvimento do KC-390, um dos mais modernos aviões de transporte de carga e tropas do mundo
Com capacidade para transportar 19 toneladas ou 80 soldados armados, o KC-390 começa a decolar. Ou melhor, a sair do papel e das telas de computador - o design digital da aeronave vem sendo divulgado desde 2007, chamada na época de C390. Os motores do projeto foram ligados durante a Latin America Aero & Defense (Laad 2009), realizada no Rio, em abril. O governo federal e a Embraer firmaram contrato de US$ 1,4 bilhão (R$ 3,1 bilhões) para o desenvolvimento e fabricação dos primeiros protótipos.
O KC-390 deve substituir os antigos Hércules C-130, ainda usados atualmente e que remontam ao final da década de 1970. A previsão é que a primeira unidade esteja nos ares dentro de sete anos. A velocidade de cruzeiro do jato será de cerca de 800 km/h. A expectativa é de que a FAB encomende 22 aeronaves. A Embraer estima um potencial de exportação de 700 unidades do novo modelo em 15 anos, o que geraria um faturamento de US$ 18 bilhões (R$ 39,6 bilhões).
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirma que o projeto é prioritário para garantir mais agilidade nas operações militares e também nas ações sociais em todo o País. Ele ainda lembrou que, nos lugares mais distantes, como as fronteiras amazônicas, o apoio logístico prestado pela Aeronáutica é vital para os batalhões do Exército. “A Estratégia Nacional de Defesa não veio para ficar no papel”, diz. “Só é possível o discurso retórico se tivermos atrás de nós equipamentos e homens capacitados. Essa assinatura, nesse momento, mostra a confiança do governo brasileiro na Embraer.”
Capaz de operar em pistas curtas e não-asfaltadas, o novo avião incorporará tecnologia de ponta e fará com que o Brasil tenha pleno domínio do software e dos códigos-fonte. De acordo com Jobim, a aeronave irá aumentar a capacidade da FAB de realizar missões humanitárias, consideradas por ele como fundamentais no continente sul-americano, além de missões de apoio logístico e transporte aéreo. O apoio das Forças Armadas aos pelotões de fronteira e a atuação em apoio às comunidades ribeirinhas na Amazônia será uma das principais funções do esquadrão de KCs. “Para poder estar presente em qualquer região do país, de norte a sul, nós precisamos da capacidade logística da FAB. Isso dependerá do KC-390”, argumenta o ministro.
O diretor-presidente da Embraer, Frederico Fleury Curado, considera fundamental a confiança do governo para o desenvolvimento de um projeto do porte do novo modelo. Afinal, o programa demandará investimentos de cerca US$ 1,4 bilhão e irá durar sete anos. “O lançamento do programa KC-390 representa um novo marco na parceria estratégica histórica entre a Força Aérea Brasileira e a Embraer”, diz.
As Forças Armadas do Brasil estabeleceram requisitos para o KC-390, assim como ocorreu com outros produtos já fabricados pela Embraer, como o Tucano, o Bandeirante, as versões de vigilância aérea e de sensoriamento remoto baseadas na plataforma do ERJ-145, utilizadas no Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), e o Super Tucano. Será avaliada ainda, junto com as Forças Armadas, a participação de outros países no programa. A previsão para entrada em serviço da aeronave é para 2015.
O jato apresentará ampla cabine, equipada com rampa traseira, para transportar os mais variados tipos de carga (incluindo veículos blindados). O KC poderá ser reabastecido em voo, além de também ser utilizado para reabastecimento de outras plataformas. A cabine de carga ainda permitirá configuração para missões de evacuação médica. Um importante avanço técnico do modelo é a tecnologia fly-by-wire. Esse sistema digital de comando do avião diminui a carga de trabalho dos pilotos, aumentando a segurança e a capacidade de operar em pistas curtas e semi-preparadas e otimizando o cumprimento da missão.
Modernização de caças
A Embraer também assinou contrato, durante a LAAD, para a modernização de 12 caças navais. São nove AF-1 (monoposto) e três AF-1A (biposto), usados nos porta-aviões São Paulo. O contrato tem valor de R$ 140 milhões. De acordo com a Marinha, as aeronaves ainda são do final da década de 1970. O programa compreende a recuperação dos aviões e de seus sistemas atuais, além de instalar novos aviônicos, glass cockpit, radar multifunção e sistema autônomo de geração de oxigênio (Obogs). “Ao selecionar a Embraer, a Marinha contribui para o fortalecimento da capacidade tecnológica instalada no País voltada à revitalização e modernização de aeronaves militares”, afirma Curado.
Os aviões da Marinha são conhecidos mundialmente como A-4 Skyhawk. O projeto, de acordo com especialistas, restabelecerá a plena capacidade operacional do 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque da Marinha. Apesar de não terem sido divulgadas mais informações sobre o pacote de modernização, especula-se, nos bastidores, que seja algo equivalente aos pacotes adotados para a atualização dos caças AMX e F-5M da FAB, com uso de eletrônica e aviônicos da companhia israelense Elbit Systems.
Rumores dizem que a empresa brasileira já produz dois tipos de aviões AMX: um monoplace (um piloto apenas) e um biplace (duas). “A idéia é modernizar as plataformas e integrar novas tecnologias. Além do mais, esse trabalho ajudará a desenvolver a indústria brasileira, criando mais empregos. É um contrato com início, meio e fim”, limita-se a dizer Orlando Neto, vice-presidente da Embraer para o mercado de defesa.