9 de setembro de 2010
 
Via aérea
13/7/2009 18:53:10 - Por Pablo Ribera e Douglas de Barros | Aviação em Revista

Transporte de cargas cai nas graças das companhias aéreas comerciais, que sinalizam novidades de peso para 2009

Além de espalhar cabelos brancos e colapsos nervosos mundo afora, a crise econômica global também disseminou pérolas – muitas discutíveis - de sabedoria popular. Um dos ditados mais difundidos diz que, em tempo de chuva, enquanto muitos lamentam outros vendem guarda-chuvas. Escolado por diversos altos e baixos ao longo dos últimos anos, o setor aéreo comercial pode ter, rapidamente, encontrado seu guarda-chuva: o segmento de cargas. No Brasil, as estatísticas, os investimentos e as estratégias declaradas por importantes companhias levam a crer que, em 2009, o transporte de produtos por aviões, especialmente o doméstico, deve surpreender.



O cenário logístico nacional inclui em seu horizonte investimentos de R$ 62 milhões em 33 terminais de carga (teca) dos aeroportos gerenciados pela Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) neste ano. A estatal estima um crescimento de 12% da receita obtida com o modal em 2009 mesmo diante de um panorama de desaceleração na economia mundial. Em 2008, o segmento já havia registrado faturamento 23% maior. Em termos de movimentação, até novembro de 2008, houve um aumento de 9,2% nas cargas exportadas, importadas e transportadas em território nacional em relação ao mesmo período de 2007. E o transporte doméstico apresentou  variação positiva de 6,3%.

Números da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) indicam uma velocidade ainda mais impressionante nos negócios internos. Segundo relatório da agência, a principal rota de carga aérea do Brasil, entre os aeroportos de Guarulhos (SP) e Manaus (AM), registrou crescimento de 150% no tráfego do primeiro semestre de 2008 em relação ao mesmo período do ano anterior. O fluxo entre Viracopos, em Campinas (SP), e Manaus (AM), por sua vez, teve um aumento incrível: 423,9%.

Apesar da evolução, o transporte aéreo ainda tem muito chão, ou melhor, céu pela frente para se equiparar a outros modais. Dados da Câmara Técnica de Carga Aérea da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) mostram que as aeronaves representam apenas 0,4% da movimentação total de produtos no Brasil. O segmento rodoviário dispara à frente desse mercado, com 58% de participação, seguido pelo ferroviário com 25%. O número mínimo da aviação, no entanto, esconde um gigante logístico: em temos de valor agregado, os voos representam 25% do setor. Essa diferença ocorre porque os itens levados pelos veículos alados são, em geral, eletrônicos, perecíveis e manufaturados de custo mais elevado.

De olho no potencial inexplorado do mercado interno, a Absa Cargo Airline, uma das poucas empresas no Brasil que opera apenas aviões cargueiros, planeja continuar os investimentos no segmento. A companhia já havia retomado, no ano passado, os voos nacionais, e, desde março, passou a dedicar um Boeing 767-300F, com capacidade para 57 toneladas de carga, exclusivamente às rotas domésticas. As operações ligam São Paulo a Manaus. “O mercado doméstico de carga aérea encontra-se em um bom momento, sem ter sido afetado pela atual crise econômica-financeira mundial, apresentando um sólido crescimento, sem alterações”, avalia o diretor-presidente da Absa, Norberto Jochmann.

As palavras crescimento e investimento também fazem parte do plano estratégico da JadLog para 2009. A empresa, que atua no segmento de transporte de cargas expressas fracionadas e mantém uma frota de 26 aviões com capacidade para até 1,5 tonelada, está adquirindo mais duas aeronaves Grand Caravan, com capacidade para 1,5 tonelada cada, ao custo de US$ 4,4 milhões e um ATR 42, que vale US$ 3,5 milhões e leva até 5 toneladas, para operar na rota São Paulo–Salvador. A companhia quer aumentar o faturamento em 80% neste ano, somadas as operações aéreas e rodoviárias.

Com a queda do número de passageiros, a carga vem se consolidando como opção estratégica para as principais companhias brasileiras. A TAM Cargo, da TAM Linhas Aéreas, anunciou em abril, durante a feira Intermodal, em São Paulo, uma parceria com a companhia portuguesa TAP. O acordo deve acrescer em 50% o fluxo de cargas movimentadas pelas empresas entre Brasil, Europa, e África. A nova malha contemplará 30 novos destinos. "Esta parceria vai nos permitir oferecer um serviço ainda mais completo e eficiente aos clientes, que podem ter a certeza de contar com uma operação de qualidade do princípio ao fim, seja no trecho da TAM Cargo, seja no da TAP Cargo", afirmou Carlos Amadeo, diretor de cargas. O grupo planeja investir R$ 10 milhões em seus terminais de carga neste ano.

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes é outra que começa a pegar no pesado em seus projetos de carga. O braço cargueiro do grupo, a Gollog, lançou em abril os serviços Gollog Express, que vão atender a demanda por entregas porta a porta. “Estamos entrando no segmento de cargas expressas com eficiência, tecnologia de ponta e a maior capilaridade disponível no mercado aéreo, com aeronaves partindo a cada um minuto e 50 segundos, num total de 800 voos diários. Ou seja, estamos preparados para atender esse exigente mercado”, diz Tarcísio Gargioni, vice-presidente de marketing e serviços da Gol.

No novo projeto da Gollog, há uma meta ambiciosa: as cidades atendidas passarão das atuais 521 para mais de 1.200 localidades no Brasil. O plano de expansão prevê 50 novas franquias entre 2009 e 2010, totalizando 102 unidades na rede. A partir dessas unidades, a expansão para o interior dos estados deverá ser contínua, permitindo alcançar futuramente a maior parte dos municípios brasileiros.
O mercado de cargas aéreas assiste ainda, no mês de maio, a decolagem de uma nova companhia. Com investimento inicial de US$ 5 milhões, o grupo paranaense JetSul, de aviação executiva, criou a Rio Linhas Aéreas para operar no transporte nacional e internacional de cargas. O primeiro avião da empresa é um Boeing 727-200F, com capacidade para 25 toneladas. Para o assessor de Planejamento e Qualidade da Rio, Mauro Ricardo Martins, “o mercado de cargas passa por um momento único na história, no qual os conceitos estão sendo revistos e a forma de trabalhar também”.


  Visão Geral 

Em entrevista exclusiva à Aviação em Revista, o diretor-presidente da ABSA Cargo, Norberto Jochmann, detalha o atual panorama do transporte aéreo de carga e revela os planos da companhia para este ano 


AR - Na sua opinião, como é o mercado de transporte aéreo de cargas no Brasil?
NJ
- Para melhor entendermos o mercado da carga aérea no Brasil, há necessidade de desmembrá-lo em doméstico e internacional.
O mercado doméstico de carga aérea encontra-se em um bom momento, sem ter sido afetado pela atual crise econômica-financeira mundial, apresentando um sólido crescimento, sem alterações. É importante observar que o transporte por cargueiro puro, como o que a Absa Cargo Airline realiza, está restrito a algumas poucas rotas, destacando-se, entre elas, a São Paulo (Guarulhos) - Manaus.

Até setembro do ano passado, a carga aérea internacional, tanto a de exportação como de importação, registrou um significativo crescimento. Com a crise atual, houve um forte impacto negativo sobre o volume da carga importação. Na exportação, o desenvolvimento, desde então, é bastante diferenciado por destinos. Enquanto para os Estados Unidos e Europa observa-se uma considerável retração, a demanda para destinos da América do Sul continua satisfatória e contribui para continuidade de seu crescimento.

A situação de infraestrutura aeroportuária para a carga aérea doméstica ainda é precária em alguns aeroportos do país, principalmente no que diz respeito à disponibilidade de armazéns.

Felizmente, a Infraero, com boa visão estratégica, criou, já em meados dos anos 1980, um aeroporto (Viracopos, em Campinas) dedicado à carga aérea internacional transportada por aeronaves exclusivamente cargueiras. A grande vantagem advinda dessa iniciativa é que Viracopos possui hoje uma forte cultura dedicada à carga aérea em todos os seus níveis, que não tem similar em qualquer outro aeroporto brasileiro.

AR - No Brasil, o transporte de carga se faz muito mais por trem ou caminhão e, mesmo sendo um transporte rápido, os aviões ficam de lado. Você considera esse serviço pouco aproveitado no País?
NJ
- Por suas características, o transporte aéreo é o modal que apresenta os custos operacionais mais elevados. Assim, por sua inerente impossibilidade de implementação de tarifas mais baixas, torna-se uma tarefa impraticável fomentar o transporte aéreo atraindo remessas de outros modais por meio da redução do valor de seu frete. No entanto, além de ser a forma mais rápida de transporte, o modal aéreo oferece outras significativas vantagens, entre elas: a diminuição dos gastos de embalagem; mercadoria já embalada em sua forma de venda ao consumidor final; seguro com valores de prêmio menores; redução do custo capital em função do menor tempo exigido para o transporte; eliminação ou sensível decréscimo das despesas de armazenagem e maior garantia para a qualidade da mercadoria no ato de entrega (imprescindível no transporte de perecíveis e animais vivos).

AR - O que se pode fazer para o mercado crescer?
NJ
- A busca pela geração de novos tipos de mercadorias para o modal aéreo deve estar focada em sua principal vantagem: a maior rapidez de transporte. A carga aérea é o tipo de transporte predestinado aos produtos de alto valor unitário. Nesse contexto, não devemos esquecer que os produtos que usam a modalidade logística do “just in time”, para atingir a sua proposta de eliminação ou manutenção de estoques mínimos, são altamente dependentes do transporte através da carga aérea.

AR - Qual a expectativa de sua empresa para esse ano? Quais as novidades e estratégias para esse ano?
NJ
- Mesmo diante da conjuntura atual, a ABSA Cargo Airline trabalha com boas perspectivas para o ano de 2009, apostando em sua capacidade de adaptação, oferta de novos produtos e serviços e na solidez  da empresa. Atenta às oportunidades que podem se apresentar nesse momento de crise financeira mundial, a companhia traça planos a curto, médio e longo prazos, como a aquisição de mais uma aeronave para enfrentar a falta de capacidade adicional disponível para o transporte, fator limitador para o crescimento da empresa que, atualmente, opera com duas areronaves B767-300F, com capacidade para transportar até 57 toneladas.

Em curto prazo a companhia está ampliando sua participação no mercado interno brasileiro de carga aérea - após a retomada dos voos domésticos no ano passado -, agora com voos regulares entre GUR-MAO-GRU, com uma aeronave exclusiva B767-300F. A nova rota Guarulhos - Manaus - Guarulhos, em operação desde a segunda quinzena de março, tem registrado ocupação média acima de 90%.
Em médio prazo, a ABSA Cargo Airline pretende consolidar, gradativamente, sua posição no transporte de carga aérea dentro do Brasil, abrindo novas rotas.

No longo prazo, o plano é aumentar a atual rede de destinos e frequências dentro do continente das três Américas e iniciar a operação para a Europa.


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